Categoria: Olivia Harrison

  • Introdução — Por Olivia Harrison

    Na tradução de hoje, traduziremos a introdução da autobiografia de George Harrison, intitulado: I Me Mine, (The Extended Edition), escrito por sua esposa Olivia Harrison, lançado originalmente em agosto de 1980, pela editora Genesis Publications; e agora com exclusividade, com tradução de nosso site, tendo a intenção de colocá-la na íntegra no app de leitura do Wattpad e num futuro próximo, na Amazon, em formato digital, em ebook, para a compra muito em breve.

    “Este livro é dedicado a jardineiros de todo o mundo.”

    — George Harrison

    Eu conhecia a letra de “I Me Mine” muito antes daquela noite de outubro de 1974, quando conheci o homem que a escreveu. George e eu havíamos conversado por telefone muitas vezes, pois eu trabalhava para sua gravadora, a Dark Horse Records, em Los Angeles. Ainda assim, aquele primeiro encontro cara a cara, seguido por vinte e sete anos juntos, é tão vívido hoje quanto a última vez que vi seu rosto.

    Durante nossa vida juntos, as questões de posse, apego e identificação com o ego, estavam na vanguarda de nossa consciência, e George sempre fazia questão de ressaltar que, na realidade, não existe “eu”, “mim” ou “meu”. George era implacável em manter nosso objetivo espiritual verdadeiro. Éramos apenas humanos caminhando por uma longa estrada em direção ao nosso objetivo comum de iluminação e eu, por minha vez, acolhia quaisquer lembretes.

    No decorrer de um dia, eu poderia ter dito: “Oh, seu pedaço do jardim está ótimo”, ao que ele responderia: “Não é meu jardim, Liv.” Era a maneira dele de lembrar a si mesmo e a mim que somos puro Espírito, e que o Espírito está em “cada grão de areia”, pertencendo a todos e a ninguém; que nada é “meu” e que o “eu” ao qual todos nos referimos deve ser reconhecido como o pequeno “i” no esquema maior do Universo. George estava cansado dos “Eu, Mim, Meus” deste mundo, incluindo o seu eu próprio, e isso desde muito jovem. Ao procurar um título para este livro, ele estava bem ciente de que as letras dessas músicas sempre estariam ligadas ao seu nome e consideradas suas músicas, mesmo sabendo que a criatividade que lhe foi concebida era um dom divino. Então, em vez de criar um título de livro que pudesse tentar explicar o dom de compor músicas como “Bem, eu os escrevi, mas eles realmente não me pertencem”, ele adotou a abordagem oposta e o risco de reivindicar este livro em uma trindade de pronomes um tanto cínica.

    Ler o que Derek Taylor tinha a dizer sobre George foi cativante mais uma vez. As percepções do homem que amo profundamente por alguém tão perspicaz e articulado como Derek se tornaram de alguma forma mais importantes para mim. Derek e George trocavam uma conversa especial que muitas vezes deixava os outros na sala completamente perplexos com sua linguagem abreviada. Levava tempo se você quisesse participar, porque seus pontos de referência eram abrangentes e cobriam décadas de personagens e eventos obscuros e coloridos, muitos compartilhados durante os dias fenomenais dos Beatles, que lhe deram um mundo particular de experiências do qual se inspirar. George citou a sabedoria dos grandes swamis, o Bhagavad Gita e os antigos Vedas, bem como o humor de Lord Buckley, os Goons, Lenny Bruce, Os Produtores de Mel Brooks e Monty Phython; ao mesmo tempo, Derek nos entretinha com aulas de história sobre as duas guerras, comentários sobre eventos atuais e política. Se alguém em nossa casa tivesse alguma dúvida sobre um desses assuntos, George sempre dizia: “Ligue para o Derek e pergunte a ele”. Ele era muito culto e compartilhava conosco informações de todos os tipos, algumas das quais não queríamos saber, mas todas apresentadas de forma divertida. Eu nem sempre tinha certeza do que era fato ou ficção (embora isso não parecesse importar).

    Os dias que passaram juntos trabalhando neste livro foram felizes e aconteceram com xícaras de chá intermináveis (pelas quais Brian Roylance, que idealizou e publicou a edição original e limitada de I Me Mine, foi o principal responsável, sendo o maior fã de chá desde o próprio Earl Grey). O diálogo de George e Derek nestas páginas revela muito sobre o relacionamento deles, que começou em Liverpool e, como costumavam nos lembrar, “Nascer em Liverpool traz consigo certas responsabilidades”. Eles trabalharam juntos por trinta anos, então as entrevistas de Derek com George eram como uma segunda natureza para ambos, mas eles sempre conseguiam produzir novas lembranças de suas experiências. Todos nós que estávamos por perto durante a escrita de I Me Mine considerávamos o riso como algo garantido. Deve ter sido uma verdadeira revelação para Brian, cujos trabalhos editoriais anteriores considerávamos documentos mais sérios, como The Log of H. M. S. Bounty e Charles Darwin’s Journal of a Voyage no H. M. S. Beagle. Eu apostaria que Brian ficou surpreso com o surgimento de seu próprio senso de travessura e humor, o que foi apreciado e incentivado. George e Derek o levaram para o mau caminho da melhor maneira possível e ele se tornou um dos amigos e confidentes mais próximos de George, especialmente depois de Derek faleceu em 1997. Brian e eu compartilhamos as lembranças daqueles dias, juntamente com o amor e o respeito que todos tínhamos uns pelos outros.

    George e Derek se divertiam criando legendas sem relação com as fotos que supostamente estavam descrevendo, algumas das quais entraram no livro. A foto na placa XXIII mostra George segurando um sitar, mas a legenda provocou cartas para a editora Genesis Publications reclamando que a cópia do leitor devia ter as fotos erradas porque “George não está comendo um sanduíche de queijo com ninguém no livro”.

    E somente os fãs de Monty Python’s Flying Circus entenderiam a legenda da placa XVII — uma referência obscura obviamente destinada a ser compartilhada com aqueles de humor semelhante — Prinz Walter, um personagem do Python, tinha dentes de madeira. Compare o sorriso do ex-primeiro-ministro britânico Harold Wilson e você entenderá. A primeira escolha para a legenda da Placa XLIII, mostrando outro ex-primeiro-ministro, Edward Heath, ao piano com George atrás, foi (George): “Você sabe que as bolas estão aparecendo?” (ex-primeiro-ministro Heath:) “Não, mas você cantarola e eu toco.”

    Era uma piada antiga, mas Derek e George não tinham vergonha. Se eu me esforçar, ainda posso vê-los e ouvi-los rindo ao redor da mesa da cozinha e sinto muita falta de ambos, juntamente com a alegria que seu humor, inteligência e afeto combinados trouxeram para minha vida.

    Para mim, a essência deste livro são as letras e acredito que elas resistem ao teste do tempo porque são escritas sobre a busca eterna do homem, seus dilemas, alegrias e tristezas. As letras de George eram, na minha opinião, as mais espiritualmente conscientes de nossa época, embora George, por sua vez, geralmente se referisse às letras de Bob Dylan ao tentar fazer uma observação ou elucidar seus próprios sentimentos de isolamento e frustração causados por coisas dentro e fora dessa vida. Muitas vezes ele disse: “Gostaria de conhecer mais palavras”, mas talvez todas as palavras do mundo, incluindo o sânscrito e os mantras que faziam parte do seu vocabulário, não pudessem expressar completamente sua profundidade de sentimento e percepção.

    Como descobri com outros compositores, George não revelada muito ao explicar suas letras. Não bastava que ele expusesse suas emoções e pensamentos para todos ouvirem? Finalmente parei de perguntar a George sobre o que suas músicas eram, porque suas respostas nunca pareciam satisfazer minhas perguntas. “Liv, eu só precisava de algo que rimasse com “amor”, então usei “luva”.

    Relacionamentos, músicas e palavras são à nossa própria experiência de vida pessoal, mas algumas das canções de George são verdadeiramente reveladas apenas por meio de uma compreensão mais profunda do significado e permitindo que a melodia, a letra, a entonação e o fraseado se infiltrem para contar a história, sem o filtro de nossas próprias interpretações. No verão de 2001, estávamos discutindo sua composição e ele me disse que qualquer pensamento ou tema que inspirasse uma letra geralmente se metamorfoseava no final da música, às vezes antes mesmo do lápis tocar o papel, como em “Your Love is Forever”. Ele começou essa música escrevendo sobre os dias em que estávamos imersos em nosso caso de amor com o Havaí e um com o outro também, mas o amor no verso de abertura logo se transformou em Amor Divino. George escreveu: “Meu amor pertence a quem pode vê-lo” e suas canções pertencem àqueles que realmente podem ouvi-las. As letras de George frequentemente nos cativavam com uma imagem e então nos levavam a um reino mais elevado, transcendendo sua inspiração inicial.

    Lendo este livro, eu podia ouvi-lo cantando cada música e, ao ver novamente as letras manuscritas, algumas em papel timbrado dos lugares onde estávamos hospedados na época, reavivou minha lembrança daqueles momentos. Vejo minha caligrafia no envelope de correio aéreo de “Learning How to Love You”. Escrevi o primeiro verso da letra para ele enquanto ele trabalhava na melodia. Então, ele pegou a caneta da minha mão e escreveu palavras que mais tarde o guiariam de volta aos pensamentos que queria expressar. Leon Russel me disse uma vez que eu deveria anotar todas as coisas engraçadas que George dizia, e muitas das vezes eu o fazia. Algumas delas acabaram em músicas e outras eram simplesmente adoráveis, como: “Gosto de não ser mestre de nada. É uma mudança em relação a todos os espertinhos.” Em outras ocasiões, podia ser algo que outra pessoa havia dito que chamava a atenção de George, como o baterista Jim Keltner, que frequentemente dizia a George que ele era um “alvo fácil”, o que inspirou a música com esse nome.

    Seja qual for a inspiração, sempre foi um privilégio testemunhar o nascimento de uma música. Você podia ver a força criativa da musa em ação, pois George tocava violão, ukelele ou piano e, de repente, ficava extremamente concentrado, como se ela tivesse lhe dado um toque no ombro para avisá-lo. Sua cabeça se inclinava como se estivesse ouvindo algo que só ele conseguia ouvir, e sua mão se movia como se estivesse encontrando o caminho para os próximos acordes, como uma varinha mágica encontrando água. Eu ficava quieta e tentava não interferir no processo, embora às vezes eu me ouvisse em alguma gravação falando sem parar sobre o que fazer para o jantar. Ah, como eu me arrependo quando ouço essas gravações! George era tão paciente e concentrado. Ele simplesmente continuava tocando, independentemente de estarmos preparando o jantar ou não.

    Estávamos nas Ilhas Virgens Britânicas em 1976, quando George escreveu “Soft Touch”. Seu pequeno parágrafo sobre composição dessa música descreve o clima e o que estava acontecendo ao nosso redor, mas para mim há muito mais naquela página, tanto em sentimento quanto em notação — apenas pequenas notas falam comigo — Na parte inferior da segunda página da letra “Soft Touch”, ele imprimiu “Bridge (noch einmal) — alemão para “mais uma vez”. George usava essa frase ocasionalmente desde a época em que eles (os Beatles) costumavam gritá-la do palco quando tocavam em Hamburgo.

    Lembro-me de que Eric Idle se juntou a nós naquele feriado. Certa tarde, estávamos tocando uma música em um pequeno toca-fitas quando atendi a uma batida na porta. O produtor de televisão Norman Lear se apresentou e nos disse que a música estava muito alta e incomodando sua esposa, que estava tentando escrever. (Era 1976, antes da era dos laptops, então estávamos de férias com o barulho da máquina de escrever do vizinho e esperávamos que ela estivesse escrevendo cartas e não um livro). Esse pequeno conflito esfriou um pouco as coisas, já que não era tão divertido saber que os vizinhos estavam reclamando de nós. No dia seguinte, Norman descobriu que era George Harrison quem estava tocando e bateu novamente em nossa porta, desta vez se desculpando e implorando para que George tocasse o quanto quisesse, não que ele e Eric precisassem de muito incentivo, já que sempre viajavam com os seus violões.

    Ouvir suas gravações também me ajudou a superar a agonia de sua ausência, mesmo que o som de sua voz e guitarra slide me trouxessem um certo conforto. O canto de George sempre me encantava e inúmeras vezes eu era a sua única plateia. “Run of the Mill” era uma música que eu frequentemente pedia à ele para tocar, pois suas letras eram tão sábias, especialmente a lembrança de que, “Amanhã, quando você levantar, outro dia para você perceber” (“eu” sendo Deus) — palavras que George não apenas escreveu, mas viveu — As músicas também evocaram memórias daqueles primeiros dias juntos, especialmente uma música como “Your Love is Forever”, que foi escrita em Hana, Maui, em fevereiro de 1978, onde estávamos aguardando o nascimento de nosso filho, Dhani.

    George amava os trópicos e sempre foi mais feliz lá. Ele se inspirou e escreveu várias músicas durante aqueles dias — “Dark Sweet Lady”, “Soft- Hearted Hana” e “Here Comes the Moon”, cujas letras são datadas de 25/02, seu aniversário. A mercearia local tinha geleia de goiaba, varas de pesca de bambu e facões, mas faltavam presentes para o homem que já tinha tudo, então comprei para o George muitas canetas e papel para incentivá-lo a escrever e, ao ler as letras daquela época, fico feliz por ter feito isso. Nadamos por lagoas de rocha vulcânica negra com nomes como Piscina de Vênus e uma pequena cabana em uma baía se tornou nosso lar de luxo por aqueles dias, sendo o maior luxo a ausência de telefone e a liberdade das exigências habituais do tempo do George. Os moradores locais nos presentearam não apenas com privacidade e o espírito Aloha, mas também com flores tropicais que nunca tínhamos visto antes: gengibre-concha, tocha e kahili misturados com colares de plumeria perfumados. Mal podíamos esperar para voltar a plantar nosso próprio jardim tropical. Ao longo dos anos, Derek e Brian se tornaram jardineiros convidados, deixando um legado exuberante de suas visitas.

    As muitas fotos daquela primeira viagem ao Havaí haviam desaparecido por mais de vinte anos. Enquanto eu escrevia esta introdução, elas me foram devolvidas. Entre elas, havia uma da lua cheia nascendo, conhecida no Havaí como Mahina, que inspirou George a escrever “Here Comes the Moon”. A última vez que George e eu estivemos lá juntos foi em fevereiro de 2001. O pôr do sol e o nascer da lua simultâneos em um céu crepuscular, as ondas quebrando nas rochas, as baleias saltando no mar, a repetição dos arco-íris e a cratera Haleakala elevando-se a 3.048 metros em nosso quintal, mais uma vez, nos humilharam e voltaram nossos rostos para Deus. Colhemos gardênias e tocamos música havaiana enquanto tomávamos café da manhã sentados ao sol, tão amado por George, em parte porque ele se sentia privado de seu calor quando criança, crescendo na Inglaterra. Mas se chovesse e as cachoeiras de 45 metros corressem, George ficava igualmente feliz. “Sublime é o verão quente e preguiçoso. Estes são dias perfeitos, como o paraíso por aqui”, ele escreveu em “Your Love is Forever” (Seu Amor é para Sempre). Sim, eles eram perfeitos para mim também, George, tão perfeitos quanto se pode ser neste mundo físico.

    As lembranças daquelas noites juntos são um presente… ele tocando violão ou ukelele sob uma lua cheia, onde as noites eram quentes e nós enganávamos o inverno inglês, impedindo-o de gelar os ossos. Apesar da tendência humana de considerar o parceiro como garantido, mesmo naquela época eu sabia que aqueles eram momentos preciosos. Eu também ignorava alegremente o quão curtos nossos dias juntos deveriam ser. Essas lembranças ressoarão com amor e reverência pelo resto da minha vida e não me importo de dizer nesta ocasião que elas são “Minhas”.

    — Olivia Harrison.